Idiossincrasias Cariocas

Por definição, idiossincrasia : característica comportamental peculiar a um indivíduo ou um grupo . Em termos práticos, são manias, feias ou não, que a gente acaba se acostumando e involuntariamente começa a achar normal.

E mania é o que não falta ao carioca, não é mesmo ? Ou melhor , não é merrrmo ?

Se marcarem uma festa às oito da noite, só chegue mesmo às oito se for pra ajudar na decoração ou botar a cerveja pra gelar. E quanto ao famoso “a gente se fala ” , ou “te ligo  “, são clássicas . Pode esperar sentado.

Também tem aquele que recebe quatro telefonemas numa Sexta Feira à noite, nos quais ele é convidado pra ir à quatro lugares diferentes e ele afirma, jura, garante que vai à todos quatro. Acho que no fundo ele mesmo acredita que vai, por alguns segundos. Afinal de contas, a dificuldade de dizer “não”é intrínseca a sua naturalidade.

Acho interessante a formação dos contraditórios estereótipos, espalhados ao longo da nossa ampla geografia: o “cuidadosamente largado “, com aquele cabelo despenteado fio a fio; o marombeiro de ocasião, que malha de abadá e com três semanas de academia já virou personal trainner de bar, geralmente com uma cervejinha na mão ; o sambista que se veste como um malandro da antiga, mas não come nem cebola ( que dirá jiló !  ), a patricinha que jura que não botou silicone, a que vai à praia e não entra na água ; os pseudo intelectuais, diplomados em Google e Wikipédia; os pagodeiros e funkeiros que gritam “meu nome é favela ! “, ou então “mais igualdade social  !”, ostentando tantas jóias que mais parecem vitrines da HStern.

Não podemos esquecer daquela figuraça, o  nariz- em- pé- sem- ter- o- que- comer. Como diria minha mãe Tereza, calça de veludo e bunda de fora. Isso me lembra um tipo muito conhecido, o cariocaço merrrmo, com aquela marra clássica de achar que o Brasil todo cai a seus pés, e onde ele chega a mulherada vai logo abrindo as pernas .

Com todo respeito aos galináceos de plantão, essa não cola mais, amigo.  Em São Paulo então, tu não se cria merrrmo ! Melhor pisar devagar pra não se atolar.

De todas essas idiossincrasias ( ô palavra bonita ! ) , tem uma que particularmente me preocupa: a do jeitinho. Aquele que Segunda chega tarde, Sexta sai cedo. Simplesmente porque nessa cultura comportamental do jeitinho está embutido o bem-bom por princípio, a negligência por base e o trabalho mal feito por fim.

No campo do entretenimento( onde eu jogo, e portanto, de onde sempre virá o meu primeiro ponto de vista ), cada vez mais tenho a impressão de que profissionalismo demais é pecado. Fazer certo tá errado, é antinatural. No Rio de Janeiro a informalidade é quem manda, essa que é constantemente confundida com irresponsabilidade.

Nos bares, restaurantes, casas de shows e baladas, vale a lei do quanto mais caro, mais cheio, mais fila, mais perrengue pra chegar, mais difícil estacionar, mais confusão, mais a gente gosta. Ser mal atendido virou charme, e pagar caro é sinal de status.

O proceder padrão só se inverte no âmbito do show business :  não pagar pelo ingresso, nesse caso, é o grande lance. O “vipismo”( tenho impressão de que essa palavra também foi inventada pelo carioca ) é outra característica marcante da sociedade carioca. “Geral”( é como se diz  aqui)  quer ser VIP, estar na lista. Não queremos pagar o ingresso, mas uma vez dentro, beliscamos, petiscamos, tomamos energético, vodka, champagne e whisky 12 anos, gastamos uma baba. Na Lapa e na Zona Sul, estamos pagando dez reais pra deixar o carro na rua. Na rua ! Porém, temos que entrar sempre pela entrada de convidados.

Já no caso da saúde e da educação, o caso é inverso. É burocracia demais, acesso de menos. Papel demais, serviço de menos. Fila demais, paciência de menos. A chamada “buró “acaba por eliminar mais de 80 por cento da demanda, o que faz com que o carioca deixe as funções de cuidar da própria saúde e de estudar sempre pra depois. Ir ao médico e ir à escola não está sendo lá muito motivador.

A saúde está em baixa, mas em contrapartida a vaidade…em “cimaço”, aço, aço .

Concordo que uma vaidadezinha é bom até a página três ( auto-estima ! estima ! – uma citação para Naldo, fenômeno da música pop ). Contudo, trata-se de uma vaidade efêmera, preguiçosa, à base de viagra pra impressionar as meninas, remédios pra emagrecer, silicones “à rodo” e dietas milagrosas…  Marotas flexões de braço e uma leve queimada na pele pra chegar maneiro na balada. Na balada não, como se diz aqui, na “night” . E tome halterocopismo.

Em suma, NINGUÉM FAZ NADA DIREITO.

E é por isso que temo por uma cidade e um cidadão despreparados para receber esses eventos que se aproximam, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.  Temos que pensar nas oportunidades que vem com esses eventos indiretamente.  É preciso qualificar-se, seja lá qual for sua área de atuação junto àquilo de convencionamos chamar de sociedade.

Por São Sebastião, faço um pedido aqui aos meus doze leitores : seja você professor de dança ou jornaleiro, matemático ou vendedor de mate, advogado ou dono de empresa;  se me permite um conselho, amigo, procure fazer seu serviço direito, e cobre o mesmo ( ou o merrrmo )  das pessoas que lhe prestam serviço. Num mundo profissional tão negligente, quem trabalha razoavelmente bem faz total diferença no todo, e certamente será bem sucedido. Labute com maestria e sua panela nunca mais vai ficar vazia.

Porém ( ah , porém ! )”brother”, se é daqueles que está cagando pro trabalho…..

Acredite, se você não faz mal a ninguém, também te respeito. O Rio é a cidade dos adoráveis vagabundos, dos atletas de copo, dos boêmios. Tudo bem se “comprou essa”. A beleza da cidade é um convite RSVP ao ócio. Esforce-se ao menos pra ser uma pessoa legal, mais humanitária, fale direito, se puder fale inglês, seja acolhedor, digno, generoso. Um vagabundo que se preze tem de estar elegante. Não seja um vagabundo vacilão.

Me reconheço e me divirto com todos esses tipos e comportamentos descritos acima. Sou um mineiro fajuto que veio de Juiz de Fora para a Vila da Penha com 20 dias de nascido. Cresci e fiz amigos, me diverti na Leopoldina, subúrbio do Rio, onde vivi até a maioridade . Minha família mora lá até hoje, com exceção de minha mãe, que é radicada na Mangueira e agora vive em Niterói . Em 17 anos que deixei a casa dos meus pais ( me poupem de fazer as contas da idade, amigos ), já morei na Zona Sul e na Zona Norte. Atualmente moro no Centro do Rio, em Santa Teresa ( não me venham com essa de que Santa Teresa é Zona Sul ) e estou prestes a mudar para a Zona Oeste. Cantei na Baixada Fluminense outro dia, gravei o palco MPB em Duque de Caxias.  Me lembrei agora de que fazia compras com meu pai naquele enorme supermercado Rainha, quando ainda morava no Largo do Bicão.

Sou capaz de arriscar que conheço a cidade de cabo a rabo.  Mas é claro que com esse território imenso, tem sempre um buraquinho que a gente ainda não foi. Tenho muito orgulho de morar aqui, e espero que um dia eu me torne alguém que possa fazer mais, algo de relevante por essa cidade que me acolheu e tanto fez por mim.  Não podemos deixar que um lugar como o Rio de Janeiro, o umbigo do mundo, seja vítima de suas próprias idiossincrasias, se cegue com a luz de seu próprio reflexo no espelho. Não podemos nos afogar nas águas de nossa própria vaidade.

Por enquanto,  é o que temos para hoje. Um texto-apelo, fruto da produção irresponsável de um cantor-compositor-romântico- idealista- metido- a- escrever. Tudo o que eu queria dizer é que o Rio merece um carioca maneiro, muito melhor. Merrrmo !

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5 thoughts on “Idiossincrasias Cariocas

  1. Idiossincrasias, essa foi nova pra mim, valeu a aula. Sou a favor e estou na corrente contigo pelo apelo, façamos direito aquilo que fazemos. Texto muito, muito bom! Oportunidades virão de monte temos que estar apto a elas. Qualquer estilo carioca que adote o adote direito saiba se portar, saiba entrar e sair dos ambientes e conversas.
    É isso me amarrei.

    Axé e beijo na Família Marques!

  2. “No Rio de Janeiro a informalidade é quem manda, essa que é constantemente confundida com irresponsabilidade.” Indo um pouco mais além, afirmo: constantemente confundimos informalidade com ilegalidade!

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