Nega Tereza

Sempre que faço o percurso casa – creche- creche – casa andando, com o bebê cada vez mais pesado nos braços, Rosa vem cumprimentando as pessoas no caminho.

Entra sempre no salão de beleza, onde gosta de ver os adesivos de borboletas no fundo da parede. “- A bô ! “, declara ela seu amor aos lepdópteros. Todos ficam encantados com a bebezinha de cabelo cada vez mais encaracoladinho.

Em seguida, passa pela padaria, onde quase sempre é contemplada com um pão de queijo ou uma água de coco. “- É pão ? “, pergunta a neném caso seu brinde não chegue depressa em suas mãos.

Segue acenando pra moça da loja de material de construção. -“Essa aí é vereadora ! “, diz a moça ao ver Rosa distribuindo beijos aos motoboys sentados na calçada.

A Fatinha, do famoso bar da Fatinha, vem correndo de onde estiver pra cumprimentá-la; até já deu pra ela um vestidinho cult bacaninha cor de rosa, com a estampa do bonde de Santa Teresa.

Seguimos passando pelo restaurante da Nega Tereza, que ocasionalmente nos acode quando não dá tempo de prepararmos nosso próprio arroz com feijão. Essa aí já é mais incisiva, pega Rosa no colo e a leva pra ver as bandeirinhas do Brasil penduradas no teto, dentro do bar. Ás vezes, Rosa ganha até um pirulito.

Nesse último parei mais uma vez, recentemente, com minha filha, voltando da creche, e pedi um suco de laranja – pra ela, obviamente. Eu já estava com minha Brahma em cima, e Rosa fazia bagunça com o copo de suco e o canudo, enquanto esperávamos minha esposa voltar de sua reunião quinzenal no Instituto Cravo Albin. O bar estava vazio e Rosa andava pelo salão.

Toda vez que estou sozinho com a bebê, muita gente estranha, pergunta pela mãe, acha extremamente engraçado e diferente. Afinal de contas, um homem estar sozinho com um bebê de um ano e meio num bar é tão comum quanto uma mulher mexendo no motor de um carro no meio da rua.

Mal sabem eles que minha filha tem pai, MESMO.

Fui eu quem tirei os restos de placenta da orelha da minha gorduchinha e dei-lhe o primeiro banho da vida, como tantos outros. Também fui eu quem cozinhei o primeiro arroz com feijão que ela comeu, aos seis meses de idade. Passeio com ela de carro, troco fralda, brincamos muito, passamos um bom tempo só nos dois, e tenho por ela um sentimento tão grande de cumplicidade e amor que supera qualquer outro que já tenha experimentado nesses módicos 34 anos de vida. Sem fugir do clichê, eu e minha filha nos falamos no olhar. E pra completar, independentemente do fato de quererem aceitar isso ou não, minha filha é a minha cara.

“- É a cara da mãe, né, gente ? “. Faço sinal de afirmativo com a cabeça, complacente. A moça do restaurante, na verdade, estava muito preocupada, pois Paula estava custando a chegar. No fundo, no fundo, ela não aceitava o fato de que Rosa estivesse tão bem ali, só eu e ela. “- Ela não quer mamar ? “, continua. Qualquer grunhido que Rosa fizesse era interpelado por “- Tadinha, tá sentindo falta da mãe !”.

E eu ali, firme na Brahma, de sorriso lânguido.

40 minutos depois, pago as duas cervejas e o suco e sigo pra casa, esquecendo a bolsa da neném nas costas da cadeira. Quando chego em casa, Paula já está.  – “Cadê a bolsa dela ? ” – “Ïh, esqueci na Nega”, respondo, entregando Rosa à mãe e já dando meia volta pra resgatar a bolsa, contendo algumas fraldas e remédios , roupas e a toalha suja da escola.

Sem estar de posse da neném, aproveito a viagem e saboreio mais algumas Brahmas – umas três. Papo vai, papo vem, encontro um amigo, outra amiga; volto pra casa uma hora depois e a bolsa fica nas costas da cadeira mais uma vez.

Retorno mais uma vez ao bar, gargalhando e perguntando a mim mesmo, pra quem quisesse ouvir: “- Como pode o ser humano esquecer duas vezes a mesma coisa, no mesmo lugar, no mesmo dia ? ”

“Qualquer dia esquece a neném ! “. Responde a criatura lá de dentro do bar, lavando os copos, fazendo cara de reprovação e acabando com meu dia. “- Será ? “Pensei com meus botões .”- Educação pra mim é coisa muito séria ! ” Continua o esporro, chutando quem já está no chão .

Fui no inferno e voltei. Encaretei na hora, acabou a graça. Refleti. Me emputeci.

Porra, seria possível eu esquecer meu maior tesouro em algum lugar só porque eu esqueci uma bolsa de fraldas ? Paula me acalmou: “- Deixa isso pra lá, ela deve ter tido essa experiência na casa dela, de um homem ausente na criação do filho, como na maioria das outras casas. De acordo com a máxima, homem não tem jeito com criança, o que acaba sendo uma ótima saída pra quem quer se livrar da “responsa”.

Assim, mais uma vez, universalizamos nosso ponto de vista. A pessoa de meia idade, com aquela vontade incontrolável de aconselhar os mais jovens ( não há coisa mais chata ), tende a achar que tudo acontece com os outros da mesma forma que aconteceu com ela . E desanda a distribuir conselhos, mesmo sem ser solicitada. Geralmente começa assim : “- Quando eu tinha a sua idade…..”

Da situação descrita, ficou um rosnado pra ela e um resmungue pra mim, agora desabafado. Quanto a ela, tenho certeza de que não fez por mal. No fundo, é gente boa, uma negra gordinha, simpática, com cara de ama-de- leite, daquelas que dá vontade da gente deitar no colo e pedir cafuné.

Porém ( ah, porém ! ), alguém achar que possa existir alguma possibilidade, ínfima que seja, de eu esquecer a MINHA FILHA num boteco, é dose. E eu ainda tive que dormir com essa, dita em voz alta, num bar, que naquele momento não estava mais vazio.

Com certeza vamos ficar um um tempinho sem passar ali. Sapo muito grande, além de engordar, dá indigestão.

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3 thoughts on “Nega Tereza

  1. Meu “Cumpadre”, não se aperreie! Bolsa é bolsa, a Rosa é a Rosa! Comentário em um momento inoportuno da Dn. Nega, até pela maneira como falou, alto, enfim. Você e Rosíssima são apenas um, creio firmemente que a tal possibilidade do esquecimento NÃO EXISTE!
    Por falar da minha Sobrinha, beijaços nela e um beijo grande pra minha “Cumadre” também!

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