É raiz, é Semente !

Imagem

 

E de repente, começo a deixar a minha mente me teleguiar.

Vou pro Semente e só saio se for no tapa.

E simplesmente porque minha alma ressuscita

a cada canção que ali palpita,  bem no coração da Lapa.

Em cada acorde tem uma oração, e no pagode, sofisticação.

Cada improviso vem com gosto de cerveja.

Em cada aviso, uma orientação; cada patente, uma dedicação.

É devoção, e o Semente é a nossa igreja.

 

Pode ser até que te peçam silêncio.

Ja deu o sinal, Yamandu pinta e borda.

Pode vir na fé, pode trazer um lenço.

É tudo real, sentimento transborda.

 

Tá na Lapa, tá na cara.

No nariz, tá na gente.

Tá na carne a cicatriz,

É raiz, é Semente !

 

 

Anúncios

Me dê motivo

O meu descontentamento público com uma rádio carioca ecoou aos 4 ventos na semana passada, bem na semana do meu aniversário. Com a cabeça mais fresca e as idéias já decantadas, tento agora explicar os motivos que me levaram a fazer o que fiz.

Em primeiro lugar, não tenho pavio curto. Tolerância e paciência são especialidades da casa; aprendi a tê-las. Quem quiser ser feliz nesse mundo, vai ter que aprender a ignorar muita coisa, já diria Doctor House.

Meu pavio é tão longo que gostaria que meu pau fosse do tamanho do meu pavio.

Antes de trabalhar com música, entre as várias funções que desempenhei, fui animador de festas infantis durante 5 anos, numa das maiores empresas do ramo. Eu tinha 17 anos, morava ainda na Vila da Penha e trabalhava basicamente no eixo Zona Sul – São Conrado- Barra, para pessoas de poder aquisitivo muito alto, que podiam bancar as mega produções infantis que a empresa fornecia.

Em meio à alegria das crianças em suas festas e colônias de férias, me deparei muitas vezes com gente rica, poderosa e arrogante ( inclusive crianças ), que faziam questão de nos colocar em nosso devido lugar em alto e bom tom, para servi-los. Ouvi coisas naquela época tão desagradáveis que acho que não seria capaz de ouvir hoje, em silêncio, mesmo com meu enorme pavio.

Quando me deparei com o chamado “show business”, ouvi frases preciosas e tive a sorte de conviver com muitos exemplos de humildade, simplicidade, calma, honestidade . Ouvi também coisas sobre pessoas que eu teria que agradar, sobre controlar a vaidade, sobre maneiras de se portar e de agir. Até hoje continuo ouvindo, e tento, da minha forma, executar tudo como manda o figurino.

Não sei se pela minha cara de bobão, mas em todo lugar que eu vou tem gente me dando conselho, me ensinando como me comportar. E dentro das possibilidades, procuro ouvir atentamente a mais uma aula.

No caso do meu conflito com a rádio, é claro que, além de todo o apoio, recebi muitas críticas à minha atitude, e já as estava esperando. Dentre elas, coisas como “você não precisa gritar pra conseguir as coisas “ou que eu estou “apressado “pra fazer sucesso.

Paralelamente à essa confusão , cá estou eu lançando um disco voz e violão, o “Casual Solo”.

Para “estourar ” no mercado atual, como dizem, não creio que o caminho seja um disco intimista, com músicas do Toninho Horta, uma valsa pra minha filha e stardands de jazz. Num momento do Brasil onde a ansiedade é senhora e ninguém tem mais 4 minutos pra ouvir uma música nova, em que as pop batucadas eufóricas varreram a MPB pra debaixo do tapete, que qualquer português correto virou um “papo cabeça demais” ou um samba mais cadenciado virou um “samba de pau mole “, lanço um disco de voz e violão.

Será mesmo que estou com tanta pressa de fazer sucesso assim ?

Em segundo lugar, já faço o tal do sucesso. Tenho meu público cativo, que aumenta a cada dia, em todos os cantos do Brasil. Assim como os artistas que citei ( e os que eu não citei ) em meu texto desabafo, todos nós temos trabalho, reconhecimento, discos gravados e munhecas saudáveis pra tocar nossos instrumentos por muitos anos ainda. Só de conseguir viver de música no Brasil, me considero um afortunado, cheio de sucesso.

Talvez o lugar onde as pessoas menos nos prestigiam seja o Rio de Janeiro, a cidade dos artistas, onde vivemos, podem nos ver a toda hora e escolher o show que vão.  E só pode parar de fazer show um tempo e se fazer de difícil quem tem um respaldo financeiro;  ou gosta de fazer gênero, que definitivamente não é o meu caso.

Em terceiro, tenho plena ciência de que sou muito jovem, e ainda tenho um longo caminho a trilhar. Se olharmos pra frente, vemos que os pilares da nossa música tem seus 70 anos em média . Eu tenho 35, e já conquistei muitas coisas. Na minha mediocridade, tenho 4 discos gravados.

Contudo, há mais de uma década que, se eu não sair pra cantar, não pago meu aluguel. Sim, ainda vivo de aluguel. E hoje em dia , se eu não sair pra cantar, não pago o colégio da minha filha.

Já tem uma ou duas gerações depois da minha ( que também são minha geração, pois absorvo todas elas ) que me escrevem dizendo que me tem como exemplo, como referência, gravando músicas minhas. Frases de músicas que eu fiz, coisas que eu escrevi são usadas no Twitter, e enchem meu peito de orgulho. Faz 6 anos que dou aula de música nos E.U.A .

Mesmo assim, depois dessa pequena história que estou escrevendo, será que AINDA estou começando agora ?

Tudo depende do ponto de vista.

É claro que, do ponto de vista dos pilares do samba, que estão aí batalhando há anos, quando o samba não tinha vez, estou começando agora , SIM. Ninguém precisa me dizer isso.

Tenho adoração por Beth Carvalho, cantora ímpar, descobridora de talentos, de excelência discográfica , swing e timbre único. Uma mestra. Zeca é Rio de Janeiro em pessoa, símbolo do carioca malandro maneiro, adorado por todos. Me enche de alegria o Jessé . Martinho e Jorge Aragão, Leci Brandão, todos sempre muito carinhosos comigo. Ícones, estão na minha formação musical, assim como os pagodeiros do Revelação e Molejo, Exalta Samba, Só pra Contrariar e Raça Negra. Nunca questionei a inclusão deles nem de ninguém no programa, seria insano da minha parte.

O problema não era quem estava ali, mas quem não estava. Se tratava do “maior encontro de samba de todos os tempos”, na Lapa, na nossa casa, onde em tese, a nova e a antiga geração se encontrariam.

Estou completando 15 anos de nova geração esse ano. 15 de música, uns doze ou treze de Lapa. Toda vez que digo isso, muita gente começa a me dizer que estava antes de mim na Lapa. Aí começam a disputar quem chegou primeiro, a falar do seu Cláudio, do Arco da Velha, que a Lapa é herança do Mandrake de Botafogo e do Sobrenatural de Santa Teresa ( aqui do lado da minha casa ! ) , do Empório 100 na Lavradio….tem gente até que é a própria reencarnação de Madame Satã.

Só que a discussão não passa por aí.

Não podemos confundir as coisas. Existe uma geração, um coletivo de pessoas que são lembradas involuntariamente quando se fala da Lapa Carioca, que conseguiram uma projeção um pouco maior ( não por serem necessariamente mais talentosas, mas por investirem energia nesse sentido ), pessoas que fizeram por onde terem suas carreiras consolidadas, registradas em disco, que continuam estudando, batalhando, querendo expandir seu território além arcos; que estão compondo, criando uma obra musical, e não são vistas como comerciais pelas grandes gravadoras. Que querem algo mais além do barzinho, querem mostrar suas músicas nos teatros, terem suas obras reconhecidas, gravadas. Gente que faz por onde, e que estaria perfeitamente adequada ao projeto da rádio que, no ínicio ( antes de ser comprado por uma gravadora ), antes mesmo do projeto existir, foi à Lapa e solicitou muitas vezes a nossa mão de obra barata.

O programa, não sejamos hipócritas, dá um empurrãozinho pra essa entrada no excludente mercado de Q.I s ( Quem Indica ) .

Essa mesma galera, que já tinha prestado uma série de serviços secundários pra rádio, estava na frente da fila do banco de reservas, louca pra jogar. A hora era aquela. A expectativa não era minha , era do meu público. Há muito tempo que não espero mais nada de ninguém; porém CRIARAM essa expectativa em mim. Me cobravam isso na rua : “- Você não está lá ? “.

Nós, ao contrário da maioria das pessoas ali, era quem mais precisávamos desse empurraozinho.

E o que me mais me irrita é a rádio fingir que não sabe disso. A gente era amigo da rádio, por isso me aborreci. Só brigo com quem eu gosto. Exatamente nesta hora as portas se fecharam, pois o projeto já era grande, a Lapa já era grande, e não precisavam mais de nós.

O silêncio da vulnerabilidade é como um carvão em brasa, apertado pelas próprias mãos até esvair o rubro. Fui somando coisas. Quanto às gravações que faço pra rádio e nunca são tocadas, chamadas e indicações de música que nunca vão ao ar, tudo mais do mesmo. Se eu não toco nem no programa de samba que eles tem, imagine na programação normal. Acostumei.

Fui alimentando a idéia de que um dia ia ser chamado oficialmente, pra compensar o tapa-buraco que sempre fazemos.  Fui muitas vezes substituir gente em outros programas da rádio em questão. Aquele papo de te chamar de manhã pra ir num troço à noite, porque alguém deixou de fazer alguma coisa que deveria ser feita. Ou te chamar pra cantar num teatro lá longe, porque nenhum outro grande artista toparia fazer.

E tudo isso dizendo que me adora.

Espero voltar à Baixada muitas vezes. Toda vez que vou, sou recebido com enorme carinho. Agora, logo eu, pequenininho, fico com a responsa de encher um teatro na Baixada Fluminense ? De que jeito, se minha música não toca na única rádio do Rio de Janeiro de maior expressão que poderia tocá-la ? Meu programa ao vivo não poderia ter sido aqui no Centro, onde meu público se concentra, me dando a possibilidade de encher um teatro e ver as pessoas cantando minhas músicas na gravação, pra me dar uma força ? Não poderiam levar um artista mais popular, consolidado, pra Duque de Caxias ?

Enfim, um negócio feito pra dar errado. Aí o público não comparece, e mais uma vez vem tudo na minha conta.

Me acostumei com esse lugar menor, com vergonha de reclamar, sempre dando graças a Deus por estar ocupando um banco de reservas que muita gente queria estar. E sabendo que, conforme o tempo passasse, meu espaço iria aumentar proporcionalmente ao meu crescimento. A gente sempre acha que vão nos compensar de alguma forma.

Só que a gente cresceu, e nossa participação…. DIMINUIU.

Apelidaram nossa música de “difícil “, ou “rebuscada “, convenientemente, pra não nos incluir na programação bancada pelas grandes gravadoras ( que restam ! ), que deitam e rolam sobre a ansiedade do povo com seus sucessos instantâneos. Pelo modo como nos classificam, parece até que fazemos música erudita. Já ouvi até a expressão “samba adulto “.

Agora vejam vocês, eu, suburbano, semi-favelado, de uma hora pra outra virei “cult”.

Conseguimos uma coisa aqui, outra ali, quando a gente consegue furar o bloqueio nos poucos programas em que ainda existe um espaço realmente democrático. Sei que toco em outras rádios, da Sky e da Net, Nacional, Roquette, Radio Globo, que eu tenho o máximo respeito e gratidão. São rádios que a gente vai realmente pra falar de música, e o apresentador sabe até o nosso nome !

No panorama atual, olhei para os lados, para frente, e me vi sem possibilidades. Constatei que realmente não estavam deixando o troço rolar. M-P-B : música para boicotar.

Dizem que, se a gente fizer por onde e trabalhar direitinho, a gente consegue as coisas. E se a gente faz por onde, e nem assim as paradas rolam ?

Qual meu destino , mudar de cidade ? Tocar pra sempre nos bares por 4 horas seguidas, com bêbados querendo te agredir porque você não cantou uma música do Cartola, ou da Mart`nália ?  Ou porque você não cantou um parabéns pra esposa dele ?

Será que um dia vou ter comprovante de renda ? Vou ter que abrir um negócio ?

Me ver sem possibilidades de expansão na cidade onde eu moro, no auge da minha disposição pra cantar, escrever e tocar, era sufocante. A medida que ia compartilhando insatisfações com meus colegas, tudo aquilo ia corroendo-me as entranhas.

Então porque a gente não toca ? Não nos enquadramos ? Não temos experiência ? Ainda somos novos, na casa dos 40 ?Não sabemos ainda tocar o nosso samba ?

Pra mim, era inexplicável. Essa sufocação toda, depois de várias tentativas de conversa com a rádio por parte do meu empresário e todos os eufemismos possíveis, gerou um texto desabafo, onde a intenção era somente dizer , pra que todos pudessem saber : “- Eu sei o que vocês estão fazendo, e não tá certo “.

Só que muito mais coisa aconteceu. Meia hora depois, começaram a chover telefonemas , de comerciantes locais, do ex-programador e criador do programa, da Ordem dos Músicos, me prestando solidariedade. Insatisfações diversas foram se somando, e isso chegou até o maior jornal da cidade. Logo depois, João Pimentel traduziu perfeitamente em outro jornal, mostrando que era mesmo um profissional do ramo, com propriedade pra falar, o meu sentimento.

É importante lembrar que, depois da divulgação do texto, a rádio convidou duas das pessoas citadas pra gravar, em cima da hora –  fora da divulgação oficial, é claro. É a minha geração aceitando bolsa- artista, como sempre, porque ……é o que temos para hoje. De qualquer forma, fico feliz por eles, pelo samba e por nós. Me senti representado com a inclusão. Vale lembrar que o descontentamento maior não era porque eu não estava lá, mas porque não me senti representado.

Quanto aos meus pares, ao lerem meu manifesto ( acabou sendo ), fui condenado por alguns, apoiado pela maioria e compartilhado por nenhuma das pessoas citadas. Teve gente desesperada  ligando pro programador da rádio pra dizer que não tinha nada a ver com isso.

E realmente não tinham. Não os condeno. Digo e repito, na Lapa não há movimento. Há uma amizade, uma admiração mútua, e uma geração de qualidade musical invejável que se cala, que finge que está satisfeita com o que tem, dividindo suas mágoas pós-show em mesas de bar. Ao fim, pareceu que o insatisfeito, aquele que não teve o retorno esperado por seus investimentos, era apenas eu. Foi o gole da cachaça que desceu mais amargo.

Portanto ( não que eu não diga tudo de novo, se precisar ), o desabafo principal ainda está lá, mas é claro que tirei alguns textos do meu mural do facebook, os diálogos mais ressentidos de um maluco falando sozinho. Primeiro, porque já dei cartaz demais pra essa rádio. Segundo, porque ali não é lugar para aquilo. Meu mural é um meio de divulgação das minhas atividades profissionais, e o objetivo do texto já foi alcançado: a luz do debate se acendeu. Por último, devo ressaltar que tal situação é uma coisa da qual eu não gosto de me lembrar.

Também sou pai de família, tenho minha intimidade e não gosto de ficar exposto, sendo julgado à minha revelia. E não me sinto nada bem sabendo que, mesmo trabalhando dignamente, com o “Know How “que adquiri,  tenho que gritar “olha, estou aqui ! ” pra conseguir o espaço que mereço. Todavia, a partir do momento em que ninguém faz nada, não posso ficar sentado com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar, ou esperar 70, 80 anos pra neguim dizer “Moyseis era um cara legal “, prática corriqueira no nosso analfabetizado e lindo país de Terceiro Mundo.

Afinal de contas, todo mundo quer subir –   a concepção da vida admite.

O espírito de porco

Imagem

O espírito de porco é uma espécie em abundância na fauna humana. Isso mesmo, na fauna humana, onde comungam do mesmo habitat que os homens cobra, crocodilo, rato, cadela, vaca e piranha.

Se gradeássemos a área onde habitam, teríamos um grande Jardim Zoológico da picaretagem.

Por ser um espirito, eventualmente o espirito de porco pode apossar-se do homo sapiens sapiens, ou seja, do ser humano comum.

Ninguém está livre de ser tomado pelo espírito de porco. Basta uma dose de sentimentos menos nobres, que todos temos, como ciúmes e inveja, combinados com uma boa quantidade de álcool e sincericida.

Muitas vezes o espirito de porco se apodera das criaturas de forma tão veemente que nem mesmo é necessário o consumo de álcool. Ele pode habitar a matéria humana por dias, meses, anos, até mesmo por uma existência inteira.

O espirito de porco manifesta-se ao som dos tambores da felicidade alheia. Em geral, a pessoa possuída tem sempre uma frase de desmotivação, de constrangimento, de desagrado para proferir na direção do indivíduo em elevado estado de satisfação.

O espirito de porco é observador. Ele observa se você tem um olho caído, uma cicatriz, uma pereba, se cortou o cabelo, como se veste, sua preferência sexual, sua forma física, seu poder aquisitivo, sua cultura, sua raça, sua origem, o tamanho do seu pau, do seu peito…

A pessoa possuída pelo espírito de porco está sempre comparando a sua vida com a dela.

O espírito de porco enxerga com os olhos do avesso. Toda e qualquer situação é vista por ele pelo pior ângulo possível, e ele está sempre demonstrando sua insatisfação com a vida publicamente.

Qualquer que seja sua vitória, por mais merecida que seja, ele sempre atribuirá seu mérito à terceiros, e vai fazer questão de dizer isso a você. O espírito de porco é muito perigoso pra sua auto estima.

O espírito de porco se orgulha da própria idade. Ele está sempre lembrando a idade que tem aos mais jovens porque, no geral, a idade é seu maior trunfo e seu maior tesouro. 

Quanto mais velho ficamos, maior é a probabilidade de sermos possuídos pelo espirito de porco.

Existem algumas formas de combater esse grande mal da sociedade :

Um dos maiores sintomas do espiritismo de porquismo é uma vontade súbita de dar conselhos sem ser solicitado. Resista a tentação de enxergar o mundo a partir do seu próprio umbigo. Talvez você não seja esse exemplo todo de vida que você acha que é .

Deseje a felicidade aos outros, e mantenha a busca pela sua. Cerque-se de gente feliz, ajude as pessoas a serem felizes, a atingirem seus objetivos. Lembre-se, gente feliz não enche o saco !

Sorria muito ! A alegria dos outros incomoda, arranha, fere o espírito de porco gradualmente, lentamente, como se ele estivesse fazendo uma tatuagem com a imagem de seu próprio fracasso. Não importa o que ele diga, não tire o sorriso do rosto. Se ele disser que você é um escroto, ofereça a ele uma bebida.

O espírito de porco normalmente se utiliza do recurso auto depreciativo corporativista, na tentativa de se sentir um pouco melhor. Coloque-se sempre abaixo dele, pois a função dele é te incomodar . Se ele disser “- Nós, que estamos gordos… “, diga a ele “Eu que estou gordo, você está ótimo….”

Jamais discuta com um espírito de porco. O espírito de porco faz questão de estar sempre com a razão. Você, que é inteligente e bem sucedido, não precisa estar certo, só precisa ser feliz. Portanto, deixe ele se enrolar sozinho, passar vergonha por ele mesmo.

Não precisa contar aos outros que você está fazendo um curso de inglês ou francês, ou de arranjo musical, ou uma dieta, ou academia, ou uma viagem, a não ser para as pessoas que você sabe que realmente torcem por você. O espírito de porco é capaz de mandar sua energia negativa através da rede social.

Exercite a compaixão, divida seus talentos, ensine, transfira seus conhecimentos, e não dê muita atenção aos sentimentos menos nobres, como aqueles que eu citei no início do texto. Esses sentimentos invocam fortemente a presença do espírito de porco.

Ore, reze, acredite em alguma coisa. Peça força e proteção contra esses espíritos .

Por fim, tenha ciência de que o espírito de porco existe, mas não fique pensando nele, pensando no que ele está pensando. Não deseje o mal a ele, apenas se proteja. Se estiver querendo muito que alguém se dê mal na vida, você pode estar possuído pelo espírito de porco.

De toda essa ladainha, só fico com pena do pobre do porco.

Idiossincrasias Cariocas

Por definição, idiossincrasia : característica comportamental peculiar a um indivíduo ou um grupo . Em termos práticos, são manias, feias ou não, que a gente acaba se acostumando e involuntariamente começa a achar normal.

E mania é o que não falta ao carioca, não é mesmo ? Ou melhor , não é merrrmo ?

Se marcarem uma festa às oito da noite, só chegue mesmo às oito se for pra ajudar na decoração ou botar a cerveja pra gelar. E quanto ao famoso “a gente se fala ” , ou “te ligo  “, são clássicas . Pode esperar sentado.

Também tem aquele que recebe quatro telefonemas numa Sexta Feira à noite, nos quais ele é convidado pra ir à quatro lugares diferentes e ele afirma, jura, garante que vai à todos quatro. Acho que no fundo ele mesmo acredita que vai, por alguns segundos. Afinal de contas, a dificuldade de dizer “não”é intrínseca a sua naturalidade.

Acho interessante a formação dos contraditórios estereótipos, espalhados ao longo da nossa ampla geografia: o “cuidadosamente largado “, com aquele cabelo despenteado fio a fio; o marombeiro de ocasião, que malha de abadá e com três semanas de academia já virou personal trainner de bar, geralmente com uma cervejinha na mão ; o sambista que se veste como um malandro da antiga, mas não come nem cebola ( que dirá jiló !  ), a patricinha que jura que não botou silicone, a que vai à praia e não entra na água ; os pseudo intelectuais, diplomados em Google e Wikipédia; os pagodeiros e funkeiros que gritam “meu nome é favela ! “, ou então “mais igualdade social  !”, ostentando tantas jóias que mais parecem vitrines da HStern.

Não podemos esquecer daquela figuraça, o  nariz- em- pé- sem- ter- o- que- comer. Como diria minha mãe Tereza, calça de veludo e bunda de fora. Isso me lembra um tipo muito conhecido, o cariocaço merrrmo, com aquela marra clássica de achar que o Brasil todo cai a seus pés, e onde ele chega a mulherada vai logo abrindo as pernas .

Com todo respeito aos galináceos de plantão, essa não cola mais, amigo.  Em São Paulo então, tu não se cria merrrmo ! Melhor pisar devagar pra não se atolar.

De todas essas idiossincrasias ( ô palavra bonita ! ) , tem uma que particularmente me preocupa: a do jeitinho. Aquele que Segunda chega tarde, Sexta sai cedo. Simplesmente porque nessa cultura comportamental do jeitinho está embutido o bem-bom por princípio, a negligência por base e o trabalho mal feito por fim.

No campo do entretenimento( onde eu jogo, e portanto, de onde sempre virá o meu primeiro ponto de vista ), cada vez mais tenho a impressão de que profissionalismo demais é pecado. Fazer certo tá errado, é antinatural. No Rio de Janeiro a informalidade é quem manda, essa que é constantemente confundida com irresponsabilidade.

Nos bares, restaurantes, casas de shows e baladas, vale a lei do quanto mais caro, mais cheio, mais fila, mais perrengue pra chegar, mais difícil estacionar, mais confusão, mais a gente gosta. Ser mal atendido virou charme, e pagar caro é sinal de status.

O proceder padrão só se inverte no âmbito do show business :  não pagar pelo ingresso, nesse caso, é o grande lance. O “vipismo”( tenho impressão de que essa palavra também foi inventada pelo carioca ) é outra característica marcante da sociedade carioca. “Geral”( é como se diz  aqui)  quer ser VIP, estar na lista. Não queremos pagar o ingresso, mas uma vez dentro, beliscamos, petiscamos, tomamos energético, vodka, champagne e whisky 12 anos, gastamos uma baba. Na Lapa e na Zona Sul, estamos pagando dez reais pra deixar o carro na rua. Na rua ! Porém, temos que entrar sempre pela entrada de convidados.

Já no caso da saúde e da educação, o caso é inverso. É burocracia demais, acesso de menos. Papel demais, serviço de menos. Fila demais, paciência de menos. A chamada “buró “acaba por eliminar mais de 80 por cento da demanda, o que faz com que o carioca deixe as funções de cuidar da própria saúde e de estudar sempre pra depois. Ir ao médico e ir à escola não está sendo lá muito motivador.

A saúde está em baixa, mas em contrapartida a vaidade…em “cimaço”, aço, aço .

Concordo que uma vaidadezinha é bom até a página três ( auto-estima ! estima ! – uma citação para Naldo, fenômeno da música pop ). Contudo, trata-se de uma vaidade efêmera, preguiçosa, à base de viagra pra impressionar as meninas, remédios pra emagrecer, silicones “à rodo” e dietas milagrosas…  Marotas flexões de braço e uma leve queimada na pele pra chegar maneiro na balada. Na balada não, como se diz aqui, na “night” . E tome halterocopismo.

Em suma, NINGUÉM FAZ NADA DIREITO.

E é por isso que temo por uma cidade e um cidadão despreparados para receber esses eventos que se aproximam, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.  Temos que pensar nas oportunidades que vem com esses eventos indiretamente.  É preciso qualificar-se, seja lá qual for sua área de atuação junto àquilo de convencionamos chamar de sociedade.

Por São Sebastião, faço um pedido aqui aos meus doze leitores : seja você professor de dança ou jornaleiro, matemático ou vendedor de mate, advogado ou dono de empresa;  se me permite um conselho, amigo, procure fazer seu serviço direito, e cobre o mesmo ( ou o merrrmo )  das pessoas que lhe prestam serviço. Num mundo profissional tão negligente, quem trabalha razoavelmente bem faz total diferença no todo, e certamente será bem sucedido. Labute com maestria e sua panela nunca mais vai ficar vazia.

Porém ( ah , porém ! )”brother”, se é daqueles que está cagando pro trabalho…..

Acredite, se você não faz mal a ninguém, também te respeito. O Rio é a cidade dos adoráveis vagabundos, dos atletas de copo, dos boêmios. Tudo bem se “comprou essa”. A beleza da cidade é um convite RSVP ao ócio. Esforce-se ao menos pra ser uma pessoa legal, mais humanitária, fale direito, se puder fale inglês, seja acolhedor, digno, generoso. Um vagabundo que se preze tem de estar elegante. Não seja um vagabundo vacilão.

Me reconheço e me divirto com todos esses tipos e comportamentos descritos acima. Sou um mineiro fajuto que veio de Juiz de Fora para a Vila da Penha com 20 dias de nascido. Cresci e fiz amigos, me diverti na Leopoldina, subúrbio do Rio, onde vivi até a maioridade . Minha família mora lá até hoje, com exceção de minha mãe, que é radicada na Mangueira e agora vive em Niterói . Em 17 anos que deixei a casa dos meus pais ( me poupem de fazer as contas da idade, amigos ), já morei na Zona Sul e na Zona Norte. Atualmente moro no Centro do Rio, em Santa Teresa ( não me venham com essa de que Santa Teresa é Zona Sul ) e estou prestes a mudar para a Zona Oeste. Cantei na Baixada Fluminense outro dia, gravei o palco MPB em Duque de Caxias.  Me lembrei agora de que fazia compras com meu pai naquele enorme supermercado Rainha, quando ainda morava no Largo do Bicão.

Sou capaz de arriscar que conheço a cidade de cabo a rabo.  Mas é claro que com esse território imenso, tem sempre um buraquinho que a gente ainda não foi. Tenho muito orgulho de morar aqui, e espero que um dia eu me torne alguém que possa fazer mais, algo de relevante por essa cidade que me acolheu e tanto fez por mim.  Não podemos deixar que um lugar como o Rio de Janeiro, o umbigo do mundo, seja vítima de suas próprias idiossincrasias, se cegue com a luz de seu próprio reflexo no espelho. Não podemos nos afogar nas águas de nossa própria vaidade.

Por enquanto,  é o que temos para hoje. Um texto-apelo, fruto da produção irresponsável de um cantor-compositor-romântico- idealista- metido- a- escrever. Tudo o que eu queria dizer é que o Rio merece um carioca maneiro, muito melhor. Merrrmo !

Descansa, Spider !

Spider

Vi pela TV, de Barra Mansa, a canela do nosso Anderson dobrando no sentido inverso durante a sua última luta, e logo a cena me remeteu `a uma experiência de descalcificação que fazíamos na Federal de Química, onde a gente introduzia um osso de galinha num copo cheio de vinagre por três dias e o osso ficava igual a uma borracha.

Só pros curiosos se satisfazerem ( não quero desviar muito do assunto ) : o ácido acético mega diluído do vinagre vai reagindo com o Carbonato de Cálcio , liberando água e CO 2 na reação e fazendo o osso ficar igual a uma cartilagem. Faça você mesmo em sua casa !

É claro que, em se tratando de Anderson Silva, os ossos do nosso querido Spider estão longe de estarem fracos; mas bem vi o sutil sorrisinho de canto de boca do Chris Weidman, um rapaz quase 10 anos mais moço, na coletiva, dizendo que “não pretendia quebrar a perna dele “.

Não pretendia ? Então não foi acidente ?

Não, gente , não foi. O rapazinho estudou o adversário,fez o dever de casa; ele mesmo confirmou que sabia que o Aranha brasileiro ia proceder daquela forma. Se não me falha a memória, no primeiro round dessa mesma luta de dois rounds, nosso Anderson levou um bocado de bordoadas .

Também revi um dia desses a luta com o Chael Sonnen, o falastrão. Lembro-me que o Spider venceu, mas foi longe de ser uma  luta fácil. Venceu sobretudo na educação, em não revidar as provocações, causando até certa insatisfação aos promotores do evento. Afinal de contas, quando o cara chama o outro pra porrada em público, a luta fica bem mais animada pra quem paga. Quem é que não lembra desse comportamento medieval de subúrbio :

“- Quem cuspir aqui xingou a mãe do outro !  ”

“-Iaaauuuuuu !  “- retrucava a platéia , incentivando o descontrole dos nervos adolescentes, em plena erupção, cuspindo lavas de adrenalina.

Anderson Silva, até onde sei, é carismático, fala bem, é um cara família , cheio de outros talentos. Vejo que anda participando de mil filmes, comerciais, programas de TV ; já tem sua própria academia; já é o maior lutador de MMA que conhecemos; e também não é mais nenhum garoto. Não nesse sentido, de continuar a lutar com 38 anos, cheio de lesões. O metabolismo não é mais o mesmo.

Em todos os veículos de imprensa, vejo o incentivo da mídia em fazer a manutenção do orgulho do cara, com o Slogan “Volta Anderson”, desejando novamente vê-lo nos ringues. Desejando uma revanche com o menino que já derrubou o Spider duas vezes. Aceita, gente, derrubou mesmo.

Posso imaginar a quantidade de dinheiro, de marketing, de patrocínio, de grifes esportivas que mantém seu interesse em que Anderson volte a lutar. Um dos filhos de Anderson pediu pra que ele voltasse e corresse atrás do seu sonho. Está no direito dele. Se meu pai, que não é lutador de nada e tem 82 anos , pra mim sempre foi meu super herói, imagina para o filho do Anderson, o spiderzinho, o little spider !

Contudo, perguntem ao pai adotivo de Anderson , pra esposa dele, qual o maior desejo deles :  Com certeza, é de que ele  pare, como já declararam publicamente umas duas ou três vezes.

E o meu também. Anderson não precisa provar mais nada pra ninguém, e ainda pode contribuir com o esporte de muitas outras maneiras. O Brasil te ama, Anderson. Você é nosso Spider. Aproveita que tá por cima, e pendura logo a chuteira, ou melhor, as luvas. Vai ser um final muito mais bonito.

O dia em que eu vi o Eike

Já me desculpando pelo tempo ausente, tentarei me redimir nas próximas semanas com novos textos que há muito quero publicar, fruto de tantas idéias saltitantes que andam fazendo cooper em meu cerebelo.

Recomeço com um relato curioso, que suscede o pré-lançamento do “Casual Solo”, no Bar Semente em 20/12 do ano passado.

Feliz com o resultado do show solo e com a liberdade de 24 horas sem a Rosa, nossa filha, que tinha ficado com a avó, eu e Paula fomos comemorar nossa efêmera alforria num motel em São Conrado. Isso mesmo, num motel. Dizem que ir ao motel com sua esposa tem tanta graça quanto dançar com sua irmã numa festa de casamento ( desculpe, amor, foi só pra não perder a piada ! ) , mas até que naquela noite bebemos e nos divertimos bastante.

Tomamos um café na Barrinha, pesquei duas garrafas de batida do Oswaldo pra levar pro meu sogro e já fui pegando o caminho do Itanhangá, pra desembocar no Alto da Boa Vista e rumarmos , na sequência, para Santa Teresa. Minha rota predileta, arborizada, desprovida de trânsito, e o melhor, com muito mais frescor do que aqui em baixo, no “Hell “de Janeiro. Sexualmente satisfeitos, com o sorriso nos lábios e a pele macia como pêssegos, nos deparamos com a cancela fechada das Paineiras.

Protegidos visualmente pelo Insulfilm da Peugeot, percebemos que dois homens se alongavam junto à cancela, como que descansando de uma corrida ou caminhada. Era um Sábado de tempo bom, umas duas da tarde, e não havia mais ninguém ali além de mim e de minha esposa, dentro do carro, e os dois cidadãos, nos vértices da cancela.

Percebi que uma das figuras me era familiar, e demorei certo tempo pra constatar que tratava-se do mega empresário Eike Batista. Pedi pra que Paula confirmasse o que estava diante dos meus olhos, pois se não era ele, tratava-se de seu irmão gêmeo. A ausência de seguranças me chamou a atenção, e também não havia nenhum carro de luxo à minha volta.

O espanto com que ele ( sempre ele, o Eike ) nos mirou, fixamente olhando para o carro, que de fora não dá pra ver quem está dentro, confirmou a informação. Era bem branco; meio velho, mas em forma, e aquele cabelo pintado de uma forma estratégica, como quem quer dizer que está ficando de cabelos brancos, mas ainda não em sua totalidade. Acho que li em algum lugar que ele implantou uma parca cabeleira.

O fato foi que fiquei meio bobão. Como militante do meio artístico, me acostumei a ver celebridades de perto, mas confesso que encontrar o Eike ali, perto das Paineiras e de minha casa, só ele e um amigo, foi, no mínimo, inusitado. Depois de um minuto olhando de dentro ( e ele de fora ) pra confirmar a informação, saí do carro e travamos um pequeno diálogo :

“- Se eu subir aqui, no Sumaré, chego em Santa ?

– Não,creio que não. Acho que você tem que voltar pra Tijuca e subir pelo Rio Comprido ( o cara manjava da geografia ! ) .

– Putz ! Moro em Santa Teresa, mas esqueci que hoje é Sábado e eles fecham a cancela.

-Você mora em Santa ? ( Ele era descoladinho !  )

– Sim, moro.

-Pô, então você devia saber disso, né ? ”

Ainda tive que engolir essa . Paula, no banco do carona, ria da minha cara. Depois ele completou que não estava conseguindo ver quem estava no carro, confirmando sua identidade e a qualidade do meu Insulfilm. Agradeci a informação e fiz a volta.

Até aí, tudo bem, nada demais. Porém, retornando e rindo da inusitada situação, pensei em um monte de coisas que gostaria de ter falado, como por exemplo, do samba que fiz para um bloco que cobrava sua promessa de despoluição da Lagoa; do que ele poderia fazer pela classe artística emergente, ou até mesmo dar-lhe um esporro pelas merdas que o Thor anda fazendo, sei lá.

Enfim, era só eu e ele, ali , no tête- à- tête. Queria ter feito, mas não fiz, e me arrependi do não-feito, que é o pior arrependimento que existe. Não sei o que eu iria conseguir com isso, talvez nada, mas é aquela história, o “não”eu já tinha. E o “sim”também não rolou, porque fiquei bobo de ver o Eike em Santa.

Alguém aí tem o número do celular dele ? Imagem

O comando de seta

Gastei as últimas semanas procurando uma peça pro carro, o comando de seta . Trata-se de um troço que parece um caranguejo, localizado entre o painel e o volante da Peugeot.

Sempre sofri do mal do século, a ansiedade. Ultimamente tenho travado uma batalha diária com esse sentimento, que ao meu ver, atrapalha demais a convivência e o aprendizado. Sendo assim, há muito tempo que me recuso a acreditar em primeiras intenções, inspirações, amizades, valores, e até mesmo preços. Sim, valor e preço são coisas diferentes.

Entrei na magia do objetivo e decidi que ia comprar essa peça onde encontrasse o melhor preço. Tudo isso impulsionado pelo fato de que, naquela semana, estava meio apertado de grana – o que fez o objetivo ficar bem mágico mesmo, praticamente um filme do Harry Potter . A peça na concessionária , que é sempre a primeira opção, custava 919 reais + 210 da mão de obra =  1139 reais, mais a gasosa. Ou seja, 1200 reais , no barato , e não tinha pra pronta entrega.

Pra mim, resolver essa missão era uma mistura de terapia e economia; mais o aprendizado, pois em cada oficina que eu ia, eu aprendia um pouco mais sobre carros com os mecânicos. Havia uma certa urgência, pois a seta não armava e o farol alto não acendia. Em compensação, o farolete não desligava, e eu dirigia pela cidade com as pessoas fazendo “glu glu” pra mim durante o dia. E eu respondia com um ié ié e um salsi fufu.

Três mecânicos em Botafogo disseram que não era um serviço fácil, e que eu só iria encontrar a peça na concessionária. Exceto um deles, que me recomendou procurar no Mercado Livre. Fui pra internet e consegui encontrar um preço mais razoável, 550 – 600 reais, dependendo do modelo.

O comando de seta controla praticamente toda a parte sinalizadora do carro, faróis, faroletes, setas, parabrisas dianteiro e traseiro, e a buzina. E dependendo das funções , quanto mais, mais botões. Por conta disso, cada telefonema era interpelado pelas mesmas perguntas : “- Tem para brisa traseiro ? “Tem air bag ? Qual o ano ? ” Qual o modelo ? “. Enfim, tão agradável quanto cancelar uma linha móvel numa tarde ensolarada através do serviço de telemarketing.

A terceira parte da missão era perguntar aos amigos entendedores do assunto, que são muitos. Recebi diversos conselhos ( esses eu pedi ! ) , mas um deles me chamou atenção:  “- Moyseis, mecânico de jaleco cobra caro “. Por que você não vai num lugar onde as pessoas tem pouca grana, reparam peças….ferro velhos !

Acendeu- me a lampadinha do bom senso. Mercado Livre não, Mercado Negro !

Parti pro Rio das Pedras, aproveitando pra finalizar uma parceria com o Bena Lobo, que mora na Barra. Consegui um telefone de um reparador de peças em Jacarepaguá, que tinha uma peça por 400 reais. No dia seguinte, a peça já estava vendida. Parti pras lojas de peças do Ponto Cem Rés, em Niterói : nada. Milhares de Auto Peças em São Cristóvão, e nadica de comando de seta . – Essa seta é do capeta ! Pensei alto.

Como a gasolina que eu já tinha gasto até ali já estava quase dando pra comprar outra Peugeot, decidi que eu ia resolver na concessionária mesmo, mas em Barra Mansa. Talvez lá tivesse pra pronta entrega, e vou à Barra Mansa constantemente visitar meus sogros.

Mas eis que, ali perto, mais precisamente em Volta Redonda, encontro o pote de ouro no fim do arco íris : Hospital das Peças. Meu Granpa-in-law estava no carona : “- Vê se é compatível ! “. Um sujeito chamado Filé tirou ali, na hora, de um Peugeot 307 todo arrebentado, mas com o comando de seta novinho. 350 reais. Image

Com a garantia de que pudesse devolver a peça caso não houvesse compatibilidade, levei o caranguejo de volta pro Rio das Pedras, onde por 50 reais minha Peugeotzinha vermelha voltou a piscar sob meus comandos. Missão dada é missão cumprida.

Dessa ladainha toda, tirei algumas lições :

1- Tratando-se de um prestador de serviço, não basta ser profissional, tem que parecer profissional. Passa credibilidade, o que faz seu trabalho valer muito mais.

2- Se andar por aí todo aceso, as pessoas vão fazer glu glu pra você, sua luz vai atrair as pessoas; não vai dar pra passar despercebido.

3- Se andar por aí todo apagado, vai receber várias buzinadas, as pessoas vão querer iluminar você; não vai dar pra aparecer.

4- Se tiver mais ou menos luz do que precisa, vai ser perigoso andar por aí. Ou seja, sua iluminação tem que ser compatível com seu modelo. É preciso dosar a luz com o ambiente.

3- Quando se dribla a ansiedade e acende-se a luz do bom senso, faz-se sempre o melhor acordo. O que era pra ser 1200 reais saiu por 400.

4- Independente da decisão e da direção a ser tomada, o comando da direção da seta dos seus pensamentos tem que ser sempre seu.

Nega Tereza

Sempre que faço o percurso casa – creche- creche – casa andando, com o bebê cada vez mais pesado nos braços, Rosa vem cumprimentando as pessoas no caminho.

Entra sempre no salão de beleza, onde gosta de ver os adesivos de borboletas no fundo da parede. “- A bô ! “, declara ela seu amor aos lepdópteros. Todos ficam encantados com a bebezinha de cabelo cada vez mais encaracoladinho.

Em seguida, passa pela padaria, onde quase sempre é contemplada com um pão de queijo ou uma água de coco. “- É pão ? “, pergunta a neném caso seu brinde não chegue depressa em suas mãos.

Segue acenando pra moça da loja de material de construção. -“Essa aí é vereadora ! “, diz a moça ao ver Rosa distribuindo beijos aos motoboys sentados na calçada.

A Fatinha, do famoso bar da Fatinha, vem correndo de onde estiver pra cumprimentá-la; até já deu pra ela um vestidinho cult bacaninha cor de rosa, com a estampa do bonde de Santa Teresa.

Seguimos passando pelo restaurante da Nega Tereza, que ocasionalmente nos acode quando não dá tempo de prepararmos nosso próprio arroz com feijão. Essa aí já é mais incisiva, pega Rosa no colo e a leva pra ver as bandeirinhas do Brasil penduradas no teto, dentro do bar. Ás vezes, Rosa ganha até um pirulito.

Nesse último parei mais uma vez, recentemente, com minha filha, voltando da creche, e pedi um suco de laranja – pra ela, obviamente. Eu já estava com minha Brahma em cima, e Rosa fazia bagunça com o copo de suco e o canudo, enquanto esperávamos minha esposa voltar de sua reunião quinzenal no Instituto Cravo Albin. O bar estava vazio e Rosa andava pelo salão.

Toda vez que estou sozinho com a bebê, muita gente estranha, pergunta pela mãe, acha extremamente engraçado e diferente. Afinal de contas, um homem estar sozinho com um bebê de um ano e meio num bar é tão comum quanto uma mulher mexendo no motor de um carro no meio da rua.

Mal sabem eles que minha filha tem pai, MESMO.

Fui eu quem tirei os restos de placenta da orelha da minha gorduchinha e dei-lhe o primeiro banho da vida, como tantos outros. Também fui eu quem cozinhei o primeiro arroz com feijão que ela comeu, aos seis meses de idade. Passeio com ela de carro, troco fralda, brincamos muito, passamos um bom tempo só nos dois, e tenho por ela um sentimento tão grande de cumplicidade e amor que supera qualquer outro que já tenha experimentado nesses módicos 34 anos de vida. Sem fugir do clichê, eu e minha filha nos falamos no olhar. E pra completar, independentemente do fato de quererem aceitar isso ou não, minha filha é a minha cara.

“- É a cara da mãe, né, gente ? “. Faço sinal de afirmativo com a cabeça, complacente. A moça do restaurante, na verdade, estava muito preocupada, pois Paula estava custando a chegar. No fundo, no fundo, ela não aceitava o fato de que Rosa estivesse tão bem ali, só eu e ela. “- Ela não quer mamar ? “, continua. Qualquer grunhido que Rosa fizesse era interpelado por “- Tadinha, tá sentindo falta da mãe !”.

E eu ali, firme na Brahma, de sorriso lânguido.

40 minutos depois, pago as duas cervejas e o suco e sigo pra casa, esquecendo a bolsa da neném nas costas da cadeira. Quando chego em casa, Paula já está.  – “Cadê a bolsa dela ? ” – “Ïh, esqueci na Nega”, respondo, entregando Rosa à mãe e já dando meia volta pra resgatar a bolsa, contendo algumas fraldas e remédios , roupas e a toalha suja da escola.

Sem estar de posse da neném, aproveito a viagem e saboreio mais algumas Brahmas – umas três. Papo vai, papo vem, encontro um amigo, outra amiga; volto pra casa uma hora depois e a bolsa fica nas costas da cadeira mais uma vez.

Retorno mais uma vez ao bar, gargalhando e perguntando a mim mesmo, pra quem quisesse ouvir: “- Como pode o ser humano esquecer duas vezes a mesma coisa, no mesmo lugar, no mesmo dia ? ”

“Qualquer dia esquece a neném ! “. Responde a criatura lá de dentro do bar, lavando os copos, fazendo cara de reprovação e acabando com meu dia. “- Será ? “Pensei com meus botões .”- Educação pra mim é coisa muito séria ! ” Continua o esporro, chutando quem já está no chão .

Fui no inferno e voltei. Encaretei na hora, acabou a graça. Refleti. Me emputeci.

Porra, seria possível eu esquecer meu maior tesouro em algum lugar só porque eu esqueci uma bolsa de fraldas ? Paula me acalmou: “- Deixa isso pra lá, ela deve ter tido essa experiência na casa dela, de um homem ausente na criação do filho, como na maioria das outras casas. De acordo com a máxima, homem não tem jeito com criança, o que acaba sendo uma ótima saída pra quem quer se livrar da “responsa”.

Assim, mais uma vez, universalizamos nosso ponto de vista. A pessoa de meia idade, com aquela vontade incontrolável de aconselhar os mais jovens ( não há coisa mais chata ), tende a achar que tudo acontece com os outros da mesma forma que aconteceu com ela . E desanda a distribuir conselhos, mesmo sem ser solicitada. Geralmente começa assim : “- Quando eu tinha a sua idade…..”

Da situação descrita, ficou um rosnado pra ela e um resmungue pra mim, agora desabafado. Quanto a ela, tenho certeza de que não fez por mal. No fundo, é gente boa, uma negra gordinha, simpática, com cara de ama-de- leite, daquelas que dá vontade da gente deitar no colo e pedir cafuné.

Porém ( ah, porém ! ), alguém achar que possa existir alguma possibilidade, ínfima que seja, de eu esquecer a MINHA FILHA num boteco, é dose. E eu ainda tive que dormir com essa, dita em voz alta, num bar, que naquele momento não estava mais vazio.

Com certeza vamos ficar um um tempinho sem passar ali. Sapo muito grande, além de engordar, dá indigestão.

Escuta, Cecília :

É importante que no dia do músico a gente tenha o conhecimento de que temos uma padroeira. Mais que uma padroeira, uma mártir !

Ferida três vezes no pescoço com uma espada, a lenda diz que Santa Cecília ainda viveu três dias antes de morrer, convencendo pessoas a transformar suas casas em igrejas. E que existia um certo anjo de Deus que a ameaçava caso violasse sua virgindade, que acabou custando seu casamento com Valerian. E seu nome, oh céus,  não consta no Livro dos Mártires.

St_cecilia_guido_reni

Escuta, minha santa, nos compadecemos de sua causa !

Também morremos pela nossa música, nada mais importante. Pobre do ser que se atreve a disputar nosso amor com ela. Não sabe que nosso som é o carbohidrato que nos engorda e nos dá energia pra viver. Se nos tiram isso, ficamos magros, doentes, xoxos, pálidos, sem vida.

Cecília, como todo mártir , também somos vítimas da incredulidade social, desde a blitz policial com sua famosa máxima “- É músico, mas trabalha em quê ? ” até o esforço não compensado de uma vida inteira de estudo.

O melhor corredor ( o atleta ), certamente leva a medalha de ouro, o lutador mais forte e mais ágil, o cinturão. Já o melhor dos musicistas pode morrer pobre e no ostracismo, pois tocar e cantar é apenas uma parte do trabalho. Como se não bastasse, a indústria do entretenimento enterrou a poesia a sete palmos de onomatopéias. Greve das consoantes !

Santinha, também temos vários anjos e demônios dentro de nós cochichando entreouvidos para que não nos vendamos e não nos  afastemos de nosso ideal. E apesar disso, diariamente somos tentados a nos afastar dele à medida que o tempo passa e os planos de saúde ficam mais caros.

Por falar nisso, minha santa, a Unimed comprou a Golden. Dá pra resolver ?

Ceci, depois de um puta show, virados no samurai, com a pombagira em cima, também podemos demorar três dias pra chegar em casa e morrer na cama. E isso também, acredite, pode custar nosso casamentos.

Poderia somente, Cecizinha, ao invés de ter transformado casas em igrejas, ter criado mais casas-de-santo, que são mais democráticas e menos preconceituosas. De quebra, elas ainda têm os tambores ancestrais que nos reviram as entranhas do pensamento até os pêlos dos membros superiores, de quem é e de quem não é do babado.

Escuta bem, Cecília : Também damos contribuições imensas pra vida das pessoas, diariamente, e muitas vezes não somos sequer lembrados.

Cecizoca, eu sei que estamos juntos, mas não estamos, meu bem, misturados. Quero que pegue fogo no mar pra eu comer peixe frito e tu peixe assado. Dorme com essa aí, do Marçal.

Feliz dia do músico, atrasado, porque se músico nunca chega na hora, imagina os parabéns….

Isso pra mim é viver !

 

No remanso da Ilha de Paquetá, onde gastei meu último feriado, encontro-me com a querida Cristina Buarque, saboreando algumas cervejas. Isso mesmo, saboreando; só com a parte de cima do biquíni, shorts, havaianas, maço de cigarros e sua bicicleta.

Não me parecia, à primeira vista, faltar nada a ela, embora a presença de outras pessoas também falantes não me deixasse aprofundar a conversa. Vendo aquela figura, possivelmente controversa `a primeira impressão dos medíocres, porém incrível e absolutamente coerente com a paisagem da ilha, mergulho mais uma vez no meu oceano de incertezas.

Percebo, felizmente, que Cristina tem a humildade e a generosidade dos grandes, e vejo o porque de tanta idolatria dos mais jovens –  num contexto específico, obviamente. Para desfrutar e beber da sabedoria de Cristina, é preciso juntar-se a ela, respirar da mesma paciência que molda o seu canto calmo, leve e melodicamente preciso.

Certa vez vi Tom Zé dizendo que a coisa mais chata que existia era show de música, onde um indivíduo ficava ali por uma hora e meia entoando canções, olhando através das pessoas, alisando seu próprio Narciso. Aquilo ficou na minha cabeça com a mesma cor, a mesma densidade, a mesma textura da figura de Cristina. Ou da figura de Macalé fumando seu cigarro no Jardim Botânico, passando despercebido no meio da multidão de cegos. Como a imagem de um Nelson Cavaquinho, por exemplo, creio eu que em algum lugar no espaço as figuras de Cristina, Tom Zé e  Jards se encontram e se acariciam. Os últimos Heavy Metals do Brasil !

Cristina

Não que eu concorde com tudo que Tom Zé diz, até porque não sei se esse ponto de vista declarado pode ser uma defesa para as limitações musicais do mestre, no que diz respeito a tocar e cantar suas músicas geniais. Mas vendo por detrás do olho de um artista como eu e tantos outros , que ralam pesado pra tocar melhor, cantar mais afinado, escrever com mais coerência e simplicidade, se vestir direito, administrar a carreira e, de quebra, ainda estar um pouco mais magro, fico me perguntando por que que a gente faz tudo isso; se é pela gente mesmo, ou pelos outros, ou um pouco dos dois.

Tenho a impressão de que, no fundo, tudo que vem com a música e deveria ser consequência dela, está ficando mais importante que a própria música. Entrar num palco está mais tenso que entrar num ringue de UFC . E equilibrar o profissionalismo que atesta o comprometimento com a arte e o desencanamento que mostra um artista verdadeiro e atraente, à vontade no palco, é tarefa para poucos.

Os grandes , como Cristina, pacientemente, desprovidos de qualquer vaidade, educam e aprimoram o ouvido da gente. Pobre do cantor que se bloqueia à essa percepção, pois não degustará da ironia genial de Tom e Jards, nem do canto de Cristina, uma professora que toca a alma da gente com seu timbre único. Vai passar a vida com seu nebulizador em riste, com seu límpido Dó 4 de peito, sem emocionar uma formiga.

E quanto à Paquetá, com seus eco táxis, sua brisa macia, seus sambas desmicrofonados, suas cervejas mofadas e suas cabrochas lânguidas e rebolativas…

Isso pra mim é viver !